¿Por qué no te callas?

¿Por qué no te callas?

Quem não se lembra daquele impagável episódio ocorrido na conferência Ibero-americana de 2007 quando o ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez após ter interrompido repetidas vezes a fala do primeiro ministro da Espanha José Luis Rodríguez Zapatero ouviu um sonoro “¿Por qué no te callas?” do rei da Espanha Juan Carlos I. Lembro-me como se fosse ontem que na ocasião dei gostosas risadas do ocorrido, pude ver também proliferação quase instantânea de milhares de “memes” e vídeos na internet, o que tornou a piada ainda melhor.

O ex-presidente Hugo Chávez insistentemente, de forma inconveniente, causou desconforto, incomodou e foi surpreendido com uma atitude, porque não dizer, “mal-educada” do rei da Espanha Juan Carlos I, uma atitude no mínimo não esperada de chefes de estado e não condizente com a pompa e importância da reunião em questão.

Recentemente, navegando sem compromisso na internet me deparei com esta “pérola” e pude relembrar do ocorrido. Com a clareza de ideias que só tempo nos dá, comecei a refletir sobre o acontecido e fazer um paralelo com o momento instável de manifestações públicas que estamos vivendo aqui no Brasil.

Manifestação e motim

Antes de seguir gostaria de me aprofundar um pouco nas palavras “manifestação” e “motim”. Estas são duas palavras que muitas vezes nos passam despercebidas em uma rápida conversa, porém, quando analisadas com calma definem claramente duas situações bastante distintas. Na Wikipédia temos as duas definições muito bem colocadas:

  • Manifestação ou protesto expressa uma reação solitária ou em grupo, de caráter público, contra ou a favor de determinado evento. Os manifestantes organizam um protesto como uma maneira pública de que suas opiniões sejam ouvidas em uma tentativa de influenciar a opinião de outras pessoas ou a política do governo, ou podem empreender a ação direta tentando, elas mesmas, decretar diretamente as mudanças desejadas.
  • Motim é uma insurreição de grupos não homogêneos, organizada ou não, contra qualquer autoridade instituída. Caracteriza-se por atos explícitos de desobediência a autoridades ou contra a ordem pública, sendo freqüentemente acompanhado de tumulto, vandalismo contra a propriedade pública e privada — lojas, automóveis, sedes de instituições — e atos de violência contra pessoas.

De maneira simplificada dá para dizer que manifestação vai por uma linha mais construtiva e motim pela via oposta. Assim como ex-presidente Hugo Chávez fez na conferência Ibero-americana de 2007 nos últimos dias temos visto um povo brasileiro que veementemente demonstra seu ponto de vista e ideais. Mas o que temos visto de fato nas ruas? Manifestações ou motins? Muitas vezes não consigo distinguir de forma clara.

Oportunismo, incoerência e violência

Não sei se sou o único, mas nos últimos anos tenho de sofrido com fortes crises periódicas de vergonha alheia. É difícil distinguir uma manifestação popular por aqui de um carnaval de rua. Por vezes acredito que manifestações em muitos casos tem virado desculpa para um momento de diversão coletiva. Um momento perfeito para “selfies”, paqueras e bebedeira. Em tempos de redes sociais, temo que likes sejam maiores que a causa em si.

Será que temos ido às ruas para defender de fato o que acreditamos? Ou queremos de alguma forma suprir a carência humana por reconhecimento e visibilidade apoiados em ideais políticos e causas sociais que demonstram em nós certo grau de amadurecimento cultural e político?

Impossível não citar a revista “Isto É Gente” de Agosto 2013. Para o mundo que eu quero descer! — indignado pensei naquele momento —. Esta edição trazia como matéria de capa um grupo de modelos brasileiros mostrando “modelitos de manifestação” com a seguinte chamada:

A Rua Virou Moda — Michelli Provensi, Talytha Pugliesei, Mariana Weickert e outras 40 pessoas presentes nas manifestações históricas celebram em um ensaio a energia das redes que acordaram o Brasil.

Puro oportunismo! Um oportunismo barato, apoiado em causas nobres de um momento histórico de nosso país.

E as manifestações contra a copa do mundo? Aqui deixo minha mais pessoal e sincera opinião. Já era pessoal! Vai ter copa sim! — como diz o famoso jargão —. A grande maioria dos argumentos contra a Copa do Mundo FIFA de 2014 são válidos, merecem atenção, precisam ser estudados com profundo cuidado. Mas, onde estavam as pessoas que hoje queimam ônibus em protesto quando a realização da Copa do Mundo FIFA foi aprovada?

Não me lembro de nenhum barulho naquela época, mas me lembro claramente de uma grande euforia com o momento econômico e projeção internacional do Brasil. Então acho que devemos ser cordiais e educados com os milhares que em breve virão nos visitar, afinal eles não tem culpa da nossa bagunça!

Quebra-quebra nas ruas, destruição de patrimônio público e privado, pessoas mascaradas, bandeiras de partidos. Recentemente vi um grupo de pessoas queimando a bandeira do Brasil, sem contexto lógico algum. Para que? — Existe uma série de coisas que não cabem em manifestações publicas. Essas atitudes invalidam o motivo principal de se estar participando de um momento como este. Não estou dizendo que este tipo de atitude, de um grupo pequeno de pessoas, invalida todo o movimento. Acredito que este tipo de atitude cria uma certa mancha no movimento, porém, o principal dano causado é contra o próprio grupo, contra a cidadania e a liberdade de expressão dos mesmos.

¿Por qué no te callas?

Pensar que manifestações públicas precisam ser momentos de completa de paz e cordialidade entre as pessoas é de uma ingenuidade muito grande. A própria manifestação em si é formada com base em um desacordo entre partes. O que precisa ser evitado é que manifestações virem verdadeiros motins e que no final se tornem mais motivo de vergonha do que de orgulho para nós brasileiros.

Sou um legítimo defensor da liberdade de expressão e do mesmo modo me apego e defendo com fervor a coerência. Acredito que o Brasil tem passado por um processo de amadurecimento cultural e político nunca antes visto. Erros fazem parte deste processo. Muitos erros têm ocorrido e vão continuar ocorrendo por imaturidade e falta de foco, porém, antes nossa imaturidade e falta de foco do que nossa ausência de voz; até por que acertar não é das tarefas mais fáceis quando existe uma insatisfação é generalizada sobre quase tudo por aqui. Com todo o otimismo — típico de um brasileiro — espero que ouvir um “¿Por qué no te callas?”, por falta de coerência, seja uma realidade cada vez mais distante de nós.



  • lagden

    Muito bonito seu ponto de vista!!

    Eu acho que está faltando o herói poderoso!!

    Por exemplo:

    Nos gibis, temos os vilões poderosos, mas também temos os heróis poderosos para combatê-los!!

    No Brasil, só tem vilão e gente fazendo barulho. Pedindo socorro!!!
    Onde está nosso poderoso herói?

    Creio que só há revolução com um líder…

    • Boa! Me diverti aqui com o seu comentário rsrs. Pois é, talvez só um líder carismático, iluminado (um herói) para dar jeito nesta situação. Bons líderes fazem toda a diferença. Um abraço!