A condição dos invisíveis

A condição dos invisíveis

Há alguns dias atrás circulou pela internet um vídeo de uma beleza rara que contava a história de um morador de rua muito especial chamado Raimundo Arruda Sobrinho, 73 anos. Acredito que muitos de nós vimos este vídeo intitulado “O condicionado” e nos emocionamos com esta história tão singular e bela (se alguém não viu o vídeo está inserido no final do post).

O seu Raimundo foi morador de rua durante 30 anos e já há 19 anos vivia no Alto de Pinheiros — zona oeste de São Paulo —, em um lugar por ele chamado de “Ilha”. Saiu de casa na década de 60 para estudar em São Paulo e perdeu o contato com a familia na década de 80.

Durante todos esses anos nunca abandonou a paixão pela escrita e o sonho de escrever um livro, passava grande parte do seu tempo escrevendo poemas. Uma vizinha da região em que o seu Raimundo ficava resolveu criar uma página no Facebook com os poemas criados por ele e deixou uma placa próxima a ele convidando as pessoas para acessarem esta página; quase por um milagre acabou promovendo o encontro do seu Raimundo com os familiares a tanto tempo perdidos — cerca de vinte anos.

Há algum tempo atrás o G1 fez uma matéria bem detalhada sobre a vida do seu Raimundo, a quem possa interessar vale a pena dar uma conferida: Morador de rua de SP reencontra família após perfil criado no Facebook. Fico imaginando quantas histórias fascinantes como esta não existem por aí nas esquinas de nossas cidades.

Por uma ironia do destino, dois dias após ter conhecido a história do seu Raimundo em uma noite gelada e chuvosa, tive o privilégio de entregar cobertores e lanches para moradores de rua em São Paulo. Tive contato com dezenas de pessoas que há anos vivem em certos pontos da cidade e para mim eram simplesmente invisíveis. Pessoas de todos os tipos: jovens, velhos, drogados, bêbados, lúcidos, trabalhadores, vagabundos, mulheres, homens, travestis.

Enquanto entregávamos os cobertores e lanches aproveitávamos o curto espaço de tempo que tínhamos com cada um deles para uma rápida conversa; foi surpreendente poder conhecer a história de cada um e observar que todos têm motivos bastante semelhantes para estarem nas ruas. Motivos como: conflitos familiares, uso de drogas, vontade própria, desemprego, alcoolismo, violência na comunidade e trabalho nas ruas são compartilhados por quase todos eles.

Em uma rápida conversa nitidamente se observa que a rua não é um lugar como outro qualquer para quem vive nela; a rua é uma triste condição de vida, imposta pelo destino, imposta por más escolhas feitas no passado e pela falta de oportunidades do presente.

Preciso confessar que fiquei chocado com a realidade. Não é novidade para nenhum de nós que existem moradores de rua. Sim, existem muitos deles! Mas, como é diferente quando podemos ver de perto! Não sabemos o que é passar frio é fome.

Lembro-me que na ocasião eu tinha ido direto do trabalho para as ruas realizar o trabalho de ação social com um grupo de amigos meus; após cerca de três horas caminhando debaixo de uma insistente garoa comecei a sentir fome e frio, naquele momento me dei conta que muitos daqueles, naquela noite dormiriam com cobertores molhados e de barriga vazia, fui imediatamente tomado por sentimento de tristeza e impotência diante da situação e pude ver com uma clareza muito grande o quanto sou egoísta e reclamão frente a confortável vida que levo.

Vivemos em um mundo de contrastes gritantes, ficou comum para nós ouvirmos falar de pessoas que ganham salários de um, dois, três milhões de reais. Não nos damos conta mais que salários assim simplesmente não deveriam existir. Salários desse porte frente aos problemas sociais do mundo chegam a ser imorais e revelam uma condição de injustiça grave, criada com base no abuso do pobre e que muito nos envergonha.

Também é comum em tempos de redes sociais ouvirmos muito frequentemente um discurso humanista — de um apelo social tão grande que me enche de esperança para com o mundo em que vivemos. Infelizmente a realidade não é essa, é fato que a maioria absoluta das pessoas se afastam quando veem moradores de rua. Em nossa vaidade e egoísmo muitas vezes evitamos até pessoas que estejam um pouco mais mal vestidas que nós; evitamos os que não estão em nosso “patamar social”.

Já disse isso aqui uma vez, mas acho que vale a pena repetir: Será que em tempos de redes sociais este discurso humanista, de apelo social tão grande, não é apenas uma tentativa de suprir a carência humana por reconhecimento e visibilidade? Uma tentativa apoiada em ideais políticos e causas sociais que demonstram em nós certo grau de amadurecimento cultural e político? Será que “likes” não estão sendo maiores que a causa em si?

Meu objetivo não é apontar nossos erros óbvios, também não quero gerar um sentimento de compaixão e culpa, apenas quero compartilhar minha percepção em relação a uma realidade quase sempre por nós esquecida — talvez até ignorada. O problema dos moradores de rua é complexo e difícil de ser tratado, porém, gosto de pensar em Tiago 1:27; me diz muito sobre o nosso papel enquanto seres humanos:

A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo. [Tiago 1:27]

Segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2012, em um Brasil de 192 milhões de habitantes estima-se que até 1% desta população more nas ruas. Em números, podemos dizer que na época existiam cerca de 1,8 milhões de moradores de rua em todo o território brasileiro. Um grupo assustador de “condicionados” — termo usado pelo seu Raimundo em seus poemas —, pessoas que estão debaixo de um jugo terrível, sujeitos, submetidos a uma condição de miséria e sofrimento.

A exemplo do seu Raimundo quantos tesouros não temos perdidos por aí? Quantos brilhantes escritores, músicos, atores, pensadores, políticos estão nas esquinas de nossas cidades; pessoas invisíveis que têm uma visão de mundo completamente diferente da nossa, pessoas que podem ter muito a nos ensinar e são simplesmente ignoradas e discriminadas.

O condicionado

The Conditioned from Facebook Stories on Vimeo.



  • marcilio vitor

    sempre que tenho uma oportunidade gosto parar e conversar longamente com essas pessoas que são em maioria lucidas e tem uma conversa franca ,sincera ,honesta …..e muitos deles tem uma alegria interior muito verdadeira coisas que nos não conhecemos…;.enfim adoro esse povo ….que ainda tem muito de gente consigo…

    • Muito legal Marcilio, gostei muito do seu comentário: “ainda tem muito de gente consigo”. Tive exatamente a mesma sensação! Obrigado pelo comentário, forte abraço!