A mudança que nos bate à porta

A mudança que nos bate à porta

Hoje, talvez pela gigantesca massa de informação disponível e velocidade da comunicação, tenho a sensação de estar vendo e vivendo uma crescente ascensão do grito por mudança, melhoria e justiça em nosso país.

Me sinto bastante otimista por poder vivenciar tudo isso. Mesmo sabendo que talvez eu não chegue a viver o Brasil dos meus sonhos, pois todo este processo de amadurecimento e melhoria leva tempo, me sinto feliz em ver que a consciência coletiva de alguma forma tem evoluído. A cada dia me convenço mais que de alguma forma nós temos mudado. Isso é muito bom, nossa mudança interior é o primeiro e mais difícil passo a ser dado para mudanças significativas em nossa sociedade.

O grande escritor russo Fyodor Dostoyevsky disse uma certa vez que o grande problema da humanidade é que todos querem mudar o mundo, mas ninguém procura mudar a si mesmo. De fato é impossível pensar em progresso sem pensar mudança de mente, sem pensar na evolução do nosso consciente coletivo — uma coisa está inseparavelmente amarrada a outra.

A palavra “mudança” nunca foi uma das palavras mais fáceis para nós seres humanos assimilarmos. Por uma série de fatores temos uma grande dificuldade com qualquer situação de mudança que temos de enfrentar em nosso período de vida. Talvez o segredo de uma “vida boa” seja o resultado de uma equação entre o número de mudanças e decisões corretas que fazemos ao longo do anos. Não gostamos de arriscar, não é confortável arriscar, temos medo de tomar decisões erradas.

Muitas vezes é difícil mudar, pois é duro admitir que estamos errados, é duro admitir que não estamos fazendo as coisas como deveríamos. Isto é algo muito natural do ser humano, muitos de nós — não todos —, temos grande dificuldade em assumir que podemos errar, que cometemos falhas e acabamos nunca mudando por uma questão de arrogância e orgulho.

Outro fator muito comum que nos leva a resistência à mudança é o “comodismo”. Nos acostumamos com coisas, lugares, pessoas. Uma situação nova e inusitada nos passa a sensação do desconhecido — temos medo. Nosso estado atual, por pior que possa parecer, ainda é seguro. Ou seja, a mudança pode representar, em algum caso, a piora no estado atual, mesmo que o presente seja bem ruim, não queremos piorar e nos acomodamos.

Acredito que toda esta limitação do ser humano, relativa ao processo de mudança, de alguma forma tem impacto no nosso processo evolutivo como sociedade. Queremos ver um Brasil de primeiro mundo dentro de pouco tempo sendo que internamente nós não conseguimos assimilar direito o que isso significa; não conseguimos assimilar direito nosso papel como cidadãos de um Brasil de primeiro mundo.

Sem realizar muito esforço conseguimos notar a existência daquela falsa ilusão que o nosso “messias” em breve chegará, ainda aguardamos aquele “super-herói” que virá, nos livrará do mal e nos levará para um novo tempo de prosperidade. Em quantos “super-heróis” apostamos nos últimos anos? Collor? FHC? Lula? Dilma?

Apesar da grande mudança que vem ocorrendo em nossa sociedade nos últimos anos, o brasileiro em sua maioria ainda não entendeu plenamente o quanto é importante a participação ativa de cada cidadão na construção de um país. Em uma democracia republicana existe uma grande responsabilidade implícita aos cidadãos para que mudanças e melhorias aconteçam.

Precisamos mudar individualmente, precisamos zelar mais intensamente pela educação, pela cultura, pela leitura, por envolvimento direto em assuntos relacionados ao bem-estar do povo brasileiro. Só por meio destes mecanismos que conseguiremos alcançar altos padrões de ética, cidadania e eficiência em nosso país.

Cada indivíduo é uma partícula em um país, cada indivíduo é responsável por cultivar uma mudança de mente e atitude que a longo prazo garante mudanças consistentes e profundas. Não se constrói um país apenas com boa infraestrutura e bons serviços públicos, mas também com amadurecimento profundo de pensamento e atitude.

Concluo citando um trecho do famoso poema “Tempo de Travessia“ do Fernando Teixeira de Andrade — é tempo de travessia, tempo de realizar esta mudança que nos bate à porta:

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. — Fernando Teixeira de Andrade



  • Bruno Linhares Neto

    Concordo plenamente com o Julinho foi muito feliz na sua colocação.

    • Muito obrigado Bruno! Obrigado pela visita e pelo comentário. Que sejamos parte da mudança que tanto queremos para o nosso país. Um abraço!