As nossas dívidas impagáveis

As nossas dívidas impagáveis

A história da humanidade desde a antiguidade sempre foi marcada por conflitos. Milênios se passaram e conflitos, desavenças, guerras de todos os tipos, pelos mais variados motivos aconteceram e acontecem em todos os cantos do planeta; alguns muito violentos, outros nem tanto, mas sempre ocorrem em função de diferenças e desacordos entre indivíduos ou grupos de pessoas.

Inúmeras são as razões que levam os seres humanos a se desentenderem entre si e muitas vezes mostrarem o que de pior têm dentro de si. Acho que podemos dizer os serem humanos ao longo dos séculos já brigaram por quase todas causas possíveis e imagináveis. Somos realmente bons nisso!

Quantas feridas, quantas dores já não causamos aos nossos semelhantes? Dores e marcas tão profundas que são capazes de cegar e amargurar povos inteiros durante muitos anos. Fomos adquirindo dívidas impagáveis ao longo dos séculos. Sim, existem de fato situações que nos fazem acreditar que nada que façamos em favor do nosso próximo será suficiente para pagar dívidas e apagar marcas tão profundas.

O que dizer dos negros que durante tantos anos foram escravos e tratados de maneira absolutamente cruel em diversos lugares do mundo, por tantos anos. Será que algum dia existirá algum método, programa de inclusão que pode amenizar tais marcas?

Será que conseguiremos esquecer a morte de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial? Como seremos capazes de lhe dar com a morte cruel de mais de um milhão de crianças inocentes?

Ficaremos em paz algum dia lembrando da crueldade e loucura que foi o Genocídio de Ruanda? Entre 6 de abril e 4 de julho de 1994, quinhentas mil pessoas foram massacradas em Ruanda em função de uma rivalidade étnica entre duas tribos do pais os Hutus e os Tutsis. Irmãos de origem étnica semelhante se matando a golpes de facão e tiros de fuzis AK-47.

Tão recente e de igual modo chocante é o bombardeio da faixa de Gaza pelos israelenses. Muitos de nós crescemos ouvindo falar desta região marcada por um ciclo de ódio sem fim entre ambos. Uma região onde pessoas simples e comuns são covardemente atacadas e perdem constantemente bens e familiares.

Poderíamos elencar sem muita dificuldade uma lista muito extensa de verdadeiras tragédias humanas. Acredito que nunca seremos capazes de fazer nada suficientemente relevante em favor no nosso próximo, nunca seremos capazes de pagar essas dívidas. Memórias ruins e grandes aprendizados sempre serão o maior legado da humanidade nestes eventos.

Frente ao ofensor sempre está o ofendido, sempre está aquele sentiu na pele os danos causados pelo seu algoz. O ofendido carrega de maneira profunda e dolorida suas feridas, muitas vezes calado, sem condições de reagir e se defender. A estes acredito que o melhor caminho — talvez o único — seja o caminho do perdão.

O que é o perdão?

O perdão é um processo mental ou espiritual de cessar o sentimento de ressentimento ou raiva contra outra pessoa ou contra si mesmo, decorrente de uma ofensa percebida, diferenças, erros ou fracassos, ou cessar a exigência de castigo ou restituição.

O perdão pode ser considerado simplesmente em termos dos sentimentos da pessoa que perdoa, ou em termos do relacionamento entre o que perdoa e a pessoa perdoada. É normalmente concedido sem qualquer expectativa de compensação, e pode ocorrer sem que o perdoado tome conhecimento (por exemplo, uma pessoa pode perdoar outra pessoa que está morta ou que não se vê há muito tempo). Em outros casos, o perdão pode vir através da oferta de alguma forma de desculpa ou restituição, ou mesmo um justo pedido de perdão, dirigido ao ofendido, por acreditar que ele é capaz de perdoar.

O perdão é o esquecimento completo e absoluto das ofensas, vem do coração, é sincero, generoso e não fere o amor próprio do ofensor. Não impõe condições humilhantes, tampouco é motivado por orgulho ou ostentação. O verdadeiro perdão se reconhece pelos atos e não pelas palavras [Wikipedia].

Gostei muito desta definição de perdão da Wikipedia, o perdão não é algo da natureza do ser humano. O perdão é atributo de pessoas fortes e maduras. Temos muita dificuldade em perdoar qualquer afronta mínima contra o nosso eu. Como perdoar um genocídio? Como perdoar a crueldade desmedida?

Esta, sem dúvida, é uma dura batalha a ser lutada pelo ofendido e talvez pelo ofensor — muitas vezes é preciso se perdoar; se livrar de um amargo sentimento de culpa. A batalha do perdão é o melhor caminho para ambos atingirem a liberdade plena e seguirem em frente de cabeça erguida.

Só o perdão nos livra de um círculo vicioso de ódio que gera a violência sem fim. Só o perdão promoverá o abraço de palestinos e israelenses, huts e tutis, afegãos e americanos. Utopia? Sim, uma grande utopia! Mas, sem dúvida o caminho mais razoável a ser seguido na busca pela convivência pacífica entre pessoas e povos com marcas tão profundas.