Se eu pudesse viver minha vida novamente

Se eu pudesse viver minha vida novamente

Tradicionalmente em época de final de ano somos convidados para participar de grupos de amigo secreto — amigo oculto para alguns. Sim, aquela famosa brincadeira de troca de presentes. Eu particularmente gosto muito da brincadeira, gosto do clima, gosto de rever as pessoas, sempre faço um esforço para aceitar todos os convites que chegam até mim.

Em 2014 não foi diferente. Alguns convites, muito mistério no ar e sempre uma grande festa no momento de se encontrar para trocar presentes. Em uma dessas reuniões de “amigos secretos” combinamos de trocar livros. Por uma grande gentileza da pessoa que me tirou ganhei dois livros: “Se eu pudesse viver minha vida novamente”, do Rubem Alves e “Não conte a ninguém” (Tell No One), do escritor americano Harlan Coben. Ambos fantásticos!

O livro “Se eu pudesse viver minha vida novamente” do Rubem Alves foi uma sugestão minha ao meu amigo secreto. Inúmeras boas recomendações sobre esse livro me despertaram grande curiosidade sobre o mesmo. Trata-se de um pequeno livro de reflexões onde o autor retrata experiências de perdas e ganhos durante a vida, sempre com um toque de nostalgia. De uma forma bastante delicada e profunda o autor também fala sobre sua infância e expectativas sobre a velhice e final da vida.

Por uma distração minha, só me dei conta que o autor tinha falecido recentemente aos 80 anos — dia 19 de julho de 2014 —, o que deu um significado ainda maior a todo o conteúdo do livro. Separei dez dessas reflexões para compartilhar aqui, me inspiraram muito e acredito que são boas reflexões para um final de ano:

1. Sofri a dor da solidão e da rejeição. Mas foi esse espaço de solidão na minha alma que me fez pensar coisas que de outra forma eu não teria pensando.

2. Criança não é meio para se chegar ao adulto. Criança é fim o lugar onde todo o adulto deve chegar.

3. Foi isso que levou T. S. Eliot a escrever que, ao final de nossas longas andanças, chegamos finalmente ao lugar de onde partimos. E o vemos então pela primeira vez. Para isso caminhamos a vida inteira: para chegar ao lugar e onde partimos. E, quando chegamos, é a surpresa. É como se nunca o tivéssemos visto.

4. Afinal somos todos crianças abandonadas. Nos momentos de solidão noturna, de insônia, tomamos consciência de que estamos destinados ao abandono, àquele tempo quando será inútil chamar “meu pai” ou “minha mãe”.

5. Eu gostaria que uma graça me fosse concedida: poder preparar o fim da minha vida como um compositor termina sua sonata — para deixá-la perfeita e completa, como herança àqueles a quem amo, obra de arte acabada e bela.

6. A distribuição de propriedades e objetos é coisa simples — basta que se escreva um testamento. Mas aquilo que realmente desejo dar para os meus filhos não pode ser dado. É coisa que só pode ser semeada, na esperança de que venha a crescer.

7. A vida é assim. Se é manhã brilhante o tempo todo, alguma coisa está errada. Tristeza é preciso. A tristeza torna as pessoas mais ternas. Se é crepúsculo o tempo todo alguma coisa não está bem. Alegria é preciso. Alegria é chama que dá vontade de viver.

8. Todo mundo tem nostalgia por um outro lugar. Todo mundo gostaria de se mudar para um outro lugar mágico. Mas são poucos os que têm coragem de tentar.

9. A vida é assim mesmo. É sempre possível deixar o barco atracado ou só navegar em baías mansas. Aí não há perigo de naufrágio. Mas não há o prazer do calafrio e do desconhecido.

10. Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou.

Rubem Alves

Encerro assim o ano de 2014. Aproveito para desejar um excelente natal e um próspero ano novo a todos. Meu muito obrigado pela ótima companhia nesse ano que se passou. Nos vemos em 2015!



  • Gabriel

    Show de bola! Leitura proveitosa. Rubem Alves tem a leveza da sabedoria.

    • Olá, Gabriel! Fiquei encantado com a escrita e visão de vida do Rubem Alves, você disse muito bem: “Rubem Alves tem a leveza da sabedoria”. Muito obrigado pela visita e pelo comentário. Abraço!