Que haja contentamento

Que haja contentamento

Quem me dera, ao menos uma vez, provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante e fala demais por não ter nada a dizer. Verso da conhecidíssima canção “Índios” composta no ano de 1986 pelo aclamado cantor e compositor Renato Russo. De forma absolutamente precisa, Renato Russo em sua genialidade pode descrever nossa realidade tão latente 28 anos antes. Assim são os dias de hoje.

Vivemos em uma sociedade onde o acúmulo de bens e títulos é sinal de prosperidade e sucesso, uma sociedade doente, cega pelo consumo e retroalimentada pelo ego, vaidade e egoísmo de cada indivíduo. Quanto devo acumular? Preciso de tanto para viver? Preciso me livrar do que tenho? Posso possuir coisas valiosas? São numerosas as questões de difícil resposta quando o assunto está relacionado ao consumo.

A vaidade é o caminho mais curto para o paraíso da satisfação, porém ela é, ao mesmo tempo, o solo onde a burrice melhor se desenvolve (Augusto Cury). No fundo, no fundo estamos todos em busca do dito paraíso da satisfação, uma satisfação que em minha opinião é impossível de ser alcançada por completo.

Através do consumo alimentamos nossa vaidade e nos sentimos bem por isso — satisfeitos. O problema é que nunca nos sentiremos suficientemente satisfeitos e se alimentarmos nossa vaidade através do consumo sempre nos convenceremos que não temos o bastante.

Tão problemático quanto o ciclo da vaidade e satisfação é o contexto individual de cada ser humano. Os limites de vaidade, satisfação e consumo são bastante variáveis e não possuem fronteiras claras, levam em conta valores regionais, culturais e morais. Por exemplo: “Qualquer mendigo em uma grande cidade tem mais que um miserável na África”. Como julgar se ele tem mais do que merece ter?

O fato certo e ponto de comum acordo é que não existem respostas prontas, receitas de bolo fáceis que de forma mágica são capazes de resolver toda essa problemática. Sempre existirão ricos e pobres, pessoas que consomem mais ou menos. Sempre existirão valores regionais, culturais e morais que influenciam o modo que os seres humanos adquirem coisas, interagem e modificam o meio quem estão inseridos.

Vivemos em um planeta finito, com recursos finitos. É responsabilidade individual de cada cidadão, zelar pelo planeta, pelo uso consciente dos recursos naturais.

Embora sustentabilidade e meio ambiente sejam assuntos extremamente importantes que estão intimamente ligados a questão do consumo, meu objetivo aqui não é falar dos mesmos. Quero, na verdade, falar de compaixão e amor ao próximo como ferramenta para transformação de nossa consciência sobre o que somos e possuímos.

Transformação de consciência e contentamento

Quando há o firme propósito de nos dedicarmos ao outro, ou ao próximo, como queiram, aprendemos a nos desapegar de nós mesmos e valorizarmos pessoas, em lugar de coisas. Logo, por entendermos que pessoas são mais importantes que coisas, nossa visão é transformada e, em consequência, somos capacitados a viver com mais simplicidade.

Se assim não for, seremos eternamente consumistas em busca de sempre mais e, sob tal visão, jamais deixaremos de ter a famosa postura insaciável de consumir. Até quando? Não sejamos burros — vaidosos, orgulhosos —, tendo pouco ou muito, que haja contentamento em nosso coração. Este texto é um convite a experimentar a vida simples através da compaixão e amor ao próximo.

É importante trazer a memória que compaixão e amor ao próximo não devem fazer parte da estratégia de marketing de ninguém. Não sejamos orgulhosos, hipócritas apoiados em boas obras. O orgulho é tão conflituoso com o amor, que Dante colocou os orgulhosos na última espiral de seu inferno, o lugar mais longe do “céu”.

A vida que me falta

O músico e poeta Fabio Brazza foi muito feliz no vídeo “A vida que me falta”, nesse vídeo ele fala sobre o tema consumo e contentamento com muita sensibilidade e sobriedade. Encerro esse texto com a reflexão proposta por ele.