Ivan Martins: Janelas de oportunidade

Ivan Martins: Janelas de oportunidade

Vez ou outra somos surpreendidos por autores e textos que despedaçam nossa alma, nos atingem em cheio e nos deixam cara a cara com nós mesmos. Essa semana pude ser surpreendido dessa maneira.

O escritor, jornalista e editor executivo da revista ÉPOCA, Ivan Martins, em sua coluna semanal sobre relacionamentos publicou um texto intitulado: Janelas de oportunidade. Esse texto fala de forma brilhante sobre oportunidades e encontros possíveis.

Sou bastante resistente a colocar textos inteiros de outras pessoas aqui, mas nesse caso, especificamente falando desse texto, quero cometer esse “pecado”.

Faço isso porque de fato esse texto me atingiu em cheio, me desestabilizou e me colocou de frente para um espelho onde eu me vi claramente. Faço isso porque não quero esquecê-lo, porque não quero que se perca e porque quero sempre lembrar do que aprendi.

Janelas de oportunidade

O amor, como tantas outras coisas, depende de oportunidades. A pessoa que hoje vira do avesso a minha vida, em outro momento poderia ter passado sem ser notada. Bastaria que houvesse alguém ocupando meus sentimentos. Ou satisfatoriamente a minha cama. Eu estaria indisponível aos apelos dela — e um caminho possível da nossa história seria fechado, antes mesmo de começar.

Acho que ainda não se escreveu suficientemente sobre a importância das janelas de oportunidades. Elas aparecem simultaneamente na vida de duas pessoas e tornam os encontros possíveis. Ou não aparecem, e nada se materializa. Um fica parado diante do outro, mas o tempo não oferece uma passagem que os ligue.

No passado, aquela pessoa me quis, mas eu estava envolvido com outro alguém. Quando o envolvimento terminou e olhei em volta, quem me queria não estava mais só. Aquilo que talvez pudesse acontecer não aconteceu. Faltou a janela. Foi preciso esperar outra volta do destino. Em alguns casos ela veio. Em outros, não. É assim. Certos romances não se concretizam. Vibram na memória apenas como possibilidade, para sempre.

Quando a gente fica mais velho, as coisas tornam-se mais complicadas. Os envolvimentos já não duram semanas ou meses. Frequentemente duram anos. As janelas de oportunidade são raras. Se você gosta de alguém que se casou, vai ter de esperar um tempo enorme para que o trem passe de volta. E talvez ele nunca passe.

Há também o complicador do luto. Você está discretamente feliz porque aquela mulher — ou aquele homem — finalmente saiu de uma relação deteriorada que durava anos. Agora, finalmente, ela — ou ele — está disponível para conhecer melhor você e seus sensuais sentimentos. Só há um problema, que se revela na primeira hora de conversa: a pessoa está mortalmente triste. Arrasada mesmo. Topa sair, conversar, beber. Como está carente, pode haver até sexo, mas talvez fosse melhor evitar. Nesse momento de luto e confusão sentimental, o ser humano habita um espaço emocional peculiar onde as coisas acontecem mas, de alguma forma, não são inteiramente registradas. Ou devidamente apreciadas. Suas oportunidades com ela — ou com ele — podem ser queimadas pela precipitação do contato. Ao contrário do que parece, a janela não está realmente aberta.

Por essa razão e por outras, talvez não valha a pena esperar demais pelas janelas de oportunidade dos outros. O dia de amanhã é insondável e o coração das pessoas, também. Hoje, comprometida, a Fulana parece muito interessada em você. Amanhã, separada, ela solenemente o ignora. Acontece o tempo todo, assim como o contrário. Não há garantias.
Melhor construir o futuro com o material inesperado do presente. Gente nova. Novas oportunidades. Se uma janela antiga se abrir, olharemos para o seu interior cuidadosamente. Se ela jamais se apresentar, contaremos que a tarde nos traga uma surpresa. A vida, afinal, é o que acontece enquanto fazemos planos. Melhor deixar-se arrebatar.

Nosso coração, porém, tem suas manias. Às vezes, é inevitável desejar o que desejamos. Se aquela criatura é tão fascinante, se tê-la nos braços é o que você espera há tanto tempo, não tenha medo — mergulhe na janela de oportunidade e faça o possível.

Convide, cultive, coloque-se com carinho e com clareza. Faça a sua parte com empenho. Se não der certo, vire a página. Isso é muito, muito importante. Ao fechar uma janela, você sinaliza ao universo que espera por outra. Ao virar as costas, permite que a sua própria janela se abra novamente. Quem gira e resmunga ao redor dos outros, não abre espaço para nada. Quem entende e sai, consente que a vida recomece.

Neste universo dominado pelo tempo e pelas circunstâncias que ele cria, os gestos são fundamentais. Gestos claro de aproximação e de afastamento. Eles constroem a sorte. Fazem com que as janelas se transformem em oportunidades concretas. Permitem que o amor deixe de ser uma possibilidade latejante no futuro para se tornar algo presente. Não sabemos quando o destino vai nos abrir uma janela, mas nos cabe decidir, agora, o que fazer diante dela.

Ivan Martins

Sobre o autor

Ivan Martins nasceu em São Paulo no mesmo ano em que os Beatles se juntaram em Liverpool. Criou-se no bairro da Penha — que insiste em não sair de dentro dele — e estudou jornalismo na Universidade de São Paulo. Casou-se pouco depois dos 20, pouco depois dos 40 e pouco depois dos 50. Acha que está bom. Desde fevereiro de 2009, publica no site da revista Época, da qual é editor, uma coluna semanal sobre relacionamentos.